Quando alguém lê no resultado de um exame que tem uma vértebra “escorregando”, é comum imaginar que ela esteja prestes a sair do lugar, mas não é exatamente isso que acontece.
A espondilolistese é o deslocamento de uma vértebra em relação a que está logo abaixo dela, geralmente na região lombar, um processo que pode ter causas diferentes e nem sempre provoca sintomas. Em algumas pessoas, a alteração é descoberta por acaso em um exame; em outras, pode estar relacionada à dor lombar ou à compressão dos nervos.
Já expliquei em outros conteúdos que existem diferentes tipos de espondilolistese e que o tratamento depende das características de cada caso. Neste artigo, quero voltar um pouco antes dessa discussão e explicar uma questão que costuma gerar dúvidas no consultório: o que faz uma vértebra perder sua posição e começar a se deslocar?
O que mantém as vértebras no lugar?
A coluna não funciona como uma simples pilha de ossos: as vértebras estão conectadas por discos, articulações e outras estruturas que ajudam a controlar os movimentos e distribuir as forças que chegam à coluna. A musculatura do tronco também participa desse equilíbrio, ajudando na movimentação e suporte durante as atividades do dia a dia.
Quando esse conjunto funciona de maneira adequada, as vértebras conseguem se manter estáveis entre si. A espondilolistese pode surgir, portanto, quando alguma dessas estruturas sofre mudanças capazes de modificar essa relação.
Por que uma vértebra pode se deslocar?
A resposta depende do tipo de espondilolistese.
Nos adultos, especialmente com o avanço da idade, uma das formas mais comuns do problema é a espondilolistese degenerativa e, nesse caso, o desgaste do disco e das articulações da coluna pode alterar a maneira como as forças são distribuídas naquele segmento. Com a perda de altura e de capacidade de absorção de carga do disco, associada às variações nas articulações, uma vértebra pode começar a se deslocar em relação à outra.
Existe também a espondilolistese ístmica, ligada a um distúrbio em uma pequena parte óssea da vértebra, chamada pars interarticularis, uma ponte de osso que ajuda a estabilizar as articulações da coluna contra movimentos excessivos. A esse fenômeno, que pode ocorrer como uma espécie de falha ou fratura por estresse na região, damos o nome de espondilólise.
A espondilólise não significa necessariamente que exista espondilolistese, já que uma pessoa pode apresentar a alteração óssea sem que a vértebra tenha se deslocado. Quando esse defeito está associado ao deslizamento de uma vértebra em relação à outra, aí temos a espondilolistese.
Movimentos repetitivos podem contribuir para o problema?
Em alguns casos, sim, já que a região lombar é submetida diariamente a diferentes tipos de força e movimentos repetitivos que levam a coluna à extensão, principalmente quando existe uma questão prévia na estrutura óssea, o que pode aumentar o estresse sobre a região.
Por isso, algumas modalidades esportivas que exigem movimentos repetidos de extensão da coluna estão associadas a uma maior ocorrência desses transtornos.
O que a pelve tem a ver com a espondilolistese?
Essa é uma parte importante da avaliação e pode ser explicada de maneira simples: quando estamos em pé, o corpo precisa manter a cabeça e o tronco equilibrados sobre a pelve e, para conseguir isso, a coluna e a pelve fazem ajustes constantes.
Quando o deslocamento é mais significativo, o formato da pelve e o alinhamento da coluna podem influenciar a maneira como as forças são distribuídas. Por isso, atualmente, não é investigado apenas quanto uma vértebra se deslocou, mas também como aquela região se relaciona com o restante da coluna e com a pelve.
Esse somatório é o equilíbrio espinopélvico e pode ser importante tanto para compreender a deformidade quanto para planejar o tratamento, sobretudo quando existe indicação de cirurgia.
Quanto maior o deslizamento, mais grave é a espondilolistese?
O grau de deslocamento é uma informação importante e pode ser classificado de acordo com a porcentagem de deslizamento de uma vértebra sobre a outra. Essa medida ajuda, mas não deve ser analisada sozinha para determinar a gravidade do quadro ou a necessidade de cirurgia.
Também é fundamental considerar os sintomas, o alinhamento da coluna, a presença ou não de compressão dos nervos e a evolução do quadro. Por isso, duas pessoas podem apresentar um grau semelhante de espondilolistese e ter recomendações diferentes de tratamento.
Quais sintomas a espondilolistese pode causar?
Nem toda espondilolistese provoca sintomas e muitas pessoas vivem sem saber que ela existe.
Quando há indícios, os mais comuns são:
- Dor lombar, que pode variar de intensidade e comportamento conforme o caso;
- Dor que se estende para as pernas, quando há irritação ou compressão de um nervo;
- Formigamento ou sensação de dormência, também relacionados ao comprometimento dos nervos;
- Fraqueza nas pernas, em situações nas quais a compressão nervosa é mais significativa.
Como é feito o diagnóstico da espondilolistese?
O diagnóstico é comumente feito a partir da avaliação médica direta e de alguns exames de imagem, escolhidos de maneira individualizada para cada paciente.
A radiografia da coluna permite identificar o deslocamento das vértebras e avaliar o alinhamento da coluna. A ressonância magnética ajuda a visualizar os discos e os nervos, principalmente quando existem sintomas relacionados à compressão nervosa.
Em alguns cenários, a tomografia computadorizada também pode ser solicitada para uma análise mais detalhada das estruturas ósseas.
Espondilolistese significa precisar de cirurgia?
Encontrar essa condição em um exame não significa, por si só, que seja necessária uma cirurgia. Muitas pessoas podem ser acompanhadas e tratadas sem operação, ainda mais quando não apresentam sintomas importantes ou quando eles podem ser controlados de forma conservadora, que costuma envolver medidas para controlar a dor, fisioterapia e exercícios voltados para a estabilidade e o fortalecimento da região lombar, sempre de acordo com as características de cada paciente.
A cirurgia pode ser considerada em situações específicas, como quando os sintomas persistem apesar do tratamento ou quando existe compressão nervosa considerável.
Nesses quadros, o objetivo também não é simplesmente “colocar a vértebra de volta no lugar”: é necessário avaliar a descompressão dos nervos, a estabilidade daquele segmento e o alinhamento da coluna.
É esse olhar particularizado que nos ajuda a evitar os extremos de ignorar um problema que merece atenção ou acreditar que todo diagnóstico de espondilolistese significa uma ida ao centro cirúrgico.

